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O despertar de uma vocação


                                                       Reinaldo Polito


Nossas palavras podem determinar o futuro profissional das pessoas

Sem saber você poderá ser o responsável pelo futuro profissional de uma pessoa. Um elogio ou uma crítica a um filho ou subordinado poderá determinar se a vontade de seguir ou não uma carreira será despertada. Da mesma forma, uma palavra de incentivo do filho ao pai ou do subordinado ao superior hierárquico poderá significar também um estímulo para que a atividade deles ganhe novas dimensões.
Pense quais foram os motivos que o levaram a abraçar a profissão que tem hoje, ou que um dia pretende desenvolver. Será que por trás da sua escolha não está o comentário de alguém que o influenciou?
Por isso, cuidado com o que diz  às pessoas, pois suas palavras poderão ser decisivas para estimular ou abortar uma carreira que talvez tenha tudo para ser vitoriosa.

Uma experiência pessoal

Recentemente experimentei momentos de muita emoção. Tudo pareceria completa peça de ficção se não tivesse acontecido comigo mesmo.
Há algum tempo comecei a pensar na minha carreira de escritor. Tentei me lembrar de como foi que tudo aconteceu. Em que momento havia sido despertada em mim essa vocação que me faz passar noites sem dormir e finais de semana sem sair um minuto sequer da frente do teclado do computador escrevendo quase duas dezenas de textos todos os meses. Embora essa atividade consuma bastante tempo e exija muita dedicação, nunca me canso, ao contrário, sinto enorme prazer em me comunicar com os leitores dos livros, revistas, jornais e sites.
Sem dúvida, a primeira pessoa a me despertar o gosto por escrever foi a Professora Yolanda Teixeira Monteiro. Tive aulas de Português com ela nos anos 1960, há mais de 40 anos.
Queria contar a ela que sua passagem pela minha vida havia sido marcante. Tentei por diversos meios encontrá-la. Perguntei sobre ela para amigos contemporâneos de escola e professores que ainda atuam na mesma instituição de ensino, mas ninguém soube me informar do seu paradeiro.
Não me conformei com a falta de informações sobre uma professora que fora tão importante na minha formação e, teimosamente, continuei insistindo.
Como escrevo semanalmente para o Jornal Tribuna Impressa de Araraquara, o melhor jornal da cidade, que atinge mais de 25 mil leitores em toda a região, resolvi contar minha história em um de meus artigos, da maneira como está a seguir.

Onde andará Yolanda?

De vez em quando me surpreendo com comentários de ex-alunos: Polito, fui seu aluno há mais de 20 anos e nunca me esqueci do dia em que você disse em sala de aula algo que foi importante para a minha vida toda. Às vezes nem eu me lembro mais de ter dito aquela “pérola”.
Pois é, as pessoas nem sempre se dão conta de como suas atitudes podem influenciar e marcar a vida daqueles que as cercam. Provavelmente, nunca deve ter passado pela cabeça da minha “Nona Spinelli” a alegria que ela me proporcionava ao levar algumas balas nas visitas que fazia à nossa casa, quando eu tinha menos de cinco anos.
Com certeza o Arsênio, que faleceu tão jovem num acidente de caminhão, também não se deu conta de como “aprumou” minha auto-estima ao comentar na porta do bar do Ricieri Tellaroli, no Jardim Primavera, na frente de um grupo de adultos, que eu era um menino inteligente. E olha que eu não tinha oito anos, mas jamais me esqueci daquele comentário.
A professora Yolanda, que dava aulas de Português no IEEBA, na época em que a sigla tinha um E a menos, também não deve imaginar como suas atitudes foram decisivas para que eu aprendesse a gostar de escrever. Ela pegava as poesias que eu escrevia e levava às outras classes para mostrar que um dos colegas da mesma série tinha jeito para escrever. Ah, na aula seguinte eu, com cerca de 15 anos, chegava pelo menos meia hora antes e ficava esperando com ansiedade o momento de entregar a ela uma nova poesia.
Essas recordações que foram tão importantes para a minha formação e para o meu futuro me enchem de alegria, mas ao mesmo tempo me entristecem.
O Arsênio e a minha nona se foram. A professora Yolanda desapareceu da minha vida, pois nunca mais ouvi falar dela.
Como eu gostaria que ela soubesse de como foi determinante para que eu me tornasse um escritor. Assim como eu fico feliz com os comentários dos que passam pelas minhas aulas, acho que ela também gostaria de ter notícias dos seus alunos. Mas, onde andará Yolanda? Quem sabe com este texto ela se lembre de mim e me avise onde está para que eu possa visitá-la e levar alguns de meus livros de presente. Onde andará você professora Yolanda?

Esse texto foi publicado na edição de um domingo, que é o dia determinado para a minha coluna. Assim que cheguei em casa de um encontro com um grupo de palestrantes amigos na casa do Waldez Ludwig, no Rio de Janeiro, minha mãe me avisou toda sorridente: a Yolanda ligou. Leu seu artigo e está aguardando sua ligação.
O texto que escrevi para a edição seguinte na Tribuna explica o que aconteceu.

Encontrei Yolanda

Impressionante! Encontrei Yolanda.
Na semana passada falei nesta coluna sobre uma professora de Português chamada Yolanda, que foi decisiva para que eu passasse a gostar de escrever.
Confesso que não tinha lá muita esperança de encontrá-la, pois a última vez que nos vimos faz mais de 40 anos. Por isso, iniciei e encerrei indagando: “onde andará você, Yolanda?”.
O que pretendi com meu texto foi levantar um tema para que pudéssemos todos refletir: que pessoas influenciaram a nossa vida. Alguns leitores me escreveram para dizer que foram tocados pelo artigo. Lembraram-se de antigos professores, tios e vizinhos que em determinado momento, com conselhos, exemplos e ensinamentos mudaram totalmente o rumo da sua existência.
Essas manifestações me deixaram feliz, pois se alguns se deram ao trabalho de escrever, imagino quantos outros devem ter parado para buscar na memória quais foram as pessoas que atravessaram seu caminho e os transformaram no que são hoje.
Entretanto, graças à força excepcional da Tribuna, minha antiga e querida professora Yolanda leu o artigo e reapareceu. Não só leu como vários de seus amigos também leram e a procuraram para fazer comentários.
Ela me ligou e num momento de grande emoção conversamos sobre o que ocorreu com a nossa vida ao longo de todos esses anos. Enquanto ela falava, devagar fui me lembrando do som meigo e ao mesmo tempo firme da sua voz. Depois de alguns minutos consegui me transportar para aquela época tão distante e tive a impressão de que estava assistindo a uma de suas aulas extraordinárias.
Yolanda Teixeira Monteiro sempre foi e é uma pessoa diferenciada. Formada em Letras Neolatinas, fez especialização em Literatura Brasileira e Portuguesa e em Filologia Portuguesa. Aposentada, mora na mesma casa.
Escreveu alguns livros de poesias e contos e publicou um deles - Passos Largos. Ainda não o li, mas já gostei. Se ela foi sempre tão competente para ensinar a escrever, dá para deduzir que qualidade tem os textos que produz.
Já marcamos um encontro. Dia 6 pela manhã vou fazer uma palestra para advogados e estudantes de direito da Uniara e ela prometeu que estará lá para me assistir. Sou muito cuidadoso com as minhas palestras, mas nessa vou caprichar ainda mais, pois quero que ela fique orgulhosa do seu aluno. Afinal, agora encontrei você, Yolanda!

E nos encontramos

No dia da  minha palestra lá estava Yolanda toda bonita, sentada na primeira fila, com um envelope na mão, pronta para me ver em ação. Quando seu nome foi citado a platéia aplaudiu demoradamente e me ajudou a prestar aquela homenagem tão merecida.
No final ela me fez uma surpresa. Descobri que não apenas ela havia influenciado para que eu me tornasse um escritor, mas que de certa maneira eu também a estimulara de alguma forma a seguir com mais dedicação o magistério. Pediu-me que lesse na frente da platéia lotada uma carta que eu escrevera e que ela guardara por mais de 40 anos. Este foi um dos trechos:

...Não poderia deixar de lhe agradecer de todo o coração o carinho que me dispensou durante o último ano. Vendo-a quase todos os dias e seguindo seus conselhos tornei-me seu fã pela maneira como trata seus alunos. Fiquei emocionado quando recebi seus cumprimentos no dia da entrega dos diplomas. Jamais a esquecerei e a levarei entre as minhas mais belas recordações...

Todos ficaram emocionados. Inclusive Fernando Passos, coordenador do curso de direito e que, além de ter me convidado para proferir a palestra, coincidentemente, também tinha sido aluno de Yolanda.
Na mesma Tribuna Impressa onde Fernando é articulista ele escreveu dois dias depois:

Na Uniara, dia 6, apresentou-se o araraquarense Reinaldo Polito, o “principal professor de oratória do País”, na opinião de Oswaldo Melantonio, o pai da oratória do Brasil.
Chega Yolanda Monteiro, a professora de Português do Polito na adolescência. Emociono-me ao lembrar-me ter sido ela também minha professora. Todos ficamos comovidos com o reencontro da mestra com seu aluno dileto, hoje um dos principais palestrantes do país.


Fui visitá-la

No sábado pela manhã peguei as sacolinhas com dez dos meus principais livros e fui até à casa de Yolanda. Ela me deu de presente também o livro de poesias que escreveu – “Passos largos”, que já devorei da primeira à última página. Como eu imaginava, um livro excepcional, produzido por uma pena sensível, culta e muito perspicaz.
Conversamos durante horas. Conheci uma de suas filhas, Maria Iolanda, essa com I, e sua neta Natália. Só emoção. A família demonstra na educação, na cultura e na estrutura de vida a mão sempre presente da educadora.

Uma grande lição

Se eu já era zeloso com os conselhos que dava aos alunos e outras pessoas que me cercam, depois dessa experiência aprendi uma boa lição e passarei a ser ainda mais cauteloso com os comentários que fizer.
É um convite que faço a você. Vamos refletir sobre a importância que as nossas palavras têm na vida e na formação das pessoas e pesar melhor cada comentário que fizermos a parentes, amigos e colegas de trabalho, independentemente da idade e da experiência de cada pessoa. 
Como você pode constatar, depois de tantos anos, mesmo ausente, Yolanda continuou a me ensinar.

 



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