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Responsabilidade Literária

Cesar Romão

Diante de um painel que ao longo dos tempos no Brasil vem desempenhando uma forte ação para que brasileiros se aproximem da literatura, acredito que falta mesmo é: Responsabilidade Literária.

Assim como eu, a primeira experiência de muitos brasileiros com o Livro deve ter sido traumática. Lembro-me que minha professora um dia entrou na sala de aula, numa escola do Sesi, no bairro da Vila Paulina, naquela época minha escola era de madeira e não de lata, e disse que teríamos de fazer um trabalho sobre um livro: ler o livro,  fazer um resumo dele e depois apresentá-lo em sala de aula.

Eu era uma criança e teria decifrar um dos clássicos de nossa literatura, onde sequer podia reconhecer ambientes, diálogos ou mesmo escala de português. Aquele trabalho foi um sacrifício, uma experiência que eu não via a hora de terminar, e parecia que nunca terminaria, mas quando terminou, o Livro tinha se tornado algo com o qual eu não desenvolvi a mínima afinidade, muito pelo contrário, era um total desespero quando outro trabalho deste tipo era solicitado pela escola.

Um pouco mais tarde descobri que aquele era o único livro de literatura que minha professora havia lido e que tinha gostado muito. Então resolveu enfiar garganta abaixo de seus alunos um prazer que lhe atendia sem ao menos procurar conhecer os resultados que tal feito ocasionaria em longo prazo àqueles alunos.

Como eu, muitos jovens ao longo de sua alfabetização foram impelidos a ler livros que não faziam o menor sentido, naquela fase de nossas vidas. Com exceção da Cartilha Caminho Suave genialmente elaborada pela professora Branca Alves de Lima, onde a alfabetização acontecia, e acontece hoje ainda em muitas partes do Brasil, pela imagem, tudo que vinha depois para nós alunos, despreparados para decifrar literatura tradicional, era um atentado à nossa capacidade em desenvolver qualquer afinidade com o Livro.

Incrível, mas ainda hoje se procede desta maneira em muitas escolas. Como realizo muitas palestras em Faculdades e Universidades, assim como em Cursinhos para Vestibular, sinto uma verdadeira ojeriza dos alunos quando têm de ler algum clássico da literatura brasileira para responder às perguntas de provas ou vestibular.

Assim nasceu uma geração de brasileiros que não lêem. Assim nasce ainda, em minha opinião, o desapego ao livro, um sentimento subliminar que vem atravessando gerações e fazendo do Brasil um país que sofre com a falta de Responsabilidade Literária.

Em minha visão de criação deste termo de Responsabilidade Literária, muitas ações precisam ser revistas. A primeira delas é justamente lá atrás, quando a criança tem seu primeiro contato com o Livro. Este contato precisa despertar prazer, felicidade, curiosidade e, mais ainda, compromisso com o ato de ler a ponto de introduzi-lo em sua vida como um hábito natural e necessário.

O treinamento de profissionais que possuem em suas mãos a oportunidade de fazer o primeiro contato de crianças com Livros é fundamental. Eu mesmo já vi professores recomendarem aos seus alunos livros que eles próprios nunca leram, para que realizassem um trabalho. Neste primeiro contato com o Livro, está o segredo e a definição do caráter literário daquela criança, que poderá criar uma imagem do livro como um amigo ou como um transtorno.

A Responsabilidade Literária segue o rumo dos Governos, que não deveriam permitir que Livros fossem envolvidos em processos de corrupção política ou mesmo transformados em bandeiras de campanha, do tipo uma mochila com um livro dentro e boa sorte ao aluno desde que seus pais votem num determinado candidato.

A Responsabilidade Literária expande-se para conscientização de pais da importância de auxiliarem seus filhos no despertar da paixão pela  literatura, e não da busca na internet, onde hoje por incrível que pareça, também muitos professores estão aceitando esta prática. Você não encontra na internet aquilo que pode encontrar em um livro, imprimir um montão de folhas não é pesquisa, é apenas impressão de um montão de folhas.

A Responsabilidade Literária compreende o empenho e o compromisso ético com autores, que devem promover em seus Livros um conteúdo capaz de causar reflexão e colaborar na educação e formação das pessoas como cidadãos melhores, além de exigirem de si mesmos a transformação em autores menos prolixos e fazer de seus escritos textos com fluência e influência.

A Responsabilidade Literária deve abri caminho através dos editores que encontrem mais livros duradouros e menos livros da moda. Pois como todos sabemos, uma moda é passageira e o lucro é obtido em um curto prazo mas, muitas vezes, causadora de prejuízo em longo prazo na mente de uma nação que deseja encontrar no livro um amigo e não um meio de subtrair moedas de seus bolsos. E a moda cria ainda a síndrome da Ficção Verdadeira, quando muitos leitores chegam a discutir comigo em minhas palestras, de forma verdadeira e fundamentada, um texto puramente de ficção.

A Responsabilidade Literária tem sua linha de ligação com o público, nas livrarias, onde as pessoas encontram-se com seus livros. Concordo que papel aceita qualquer coisa, que algumas editoras ainda editam qualquer coisa, mas livrarias não deveriam aceitar qualquer para seus leitores. A livraria precisa conscientizar-se de seu papel paternal junto aos leitores: uma livraria é o berçário de um livro, é ali que ele sorri, chora, lança seu olhar ao leitor como se estivesse dizendo: me leve para casa, tenho uma ótima história para lhe contar...

O Livreiro é como um celeiro de conhecimento, é como um criador de tendências, e deve respeitar as emoções que seus livros podem causar nos leitores. O Livreiro é um cativador de leitores, e tem assim responsabilidade sobre eles.

A Responsabilidade Literária encerra seu ciclo nas mãos, na mente e na boca do leitor, que poderá fazer daquele livro, um volume a mais em sua biblioteca, só para dizer que tem a obra da moda, que leu, mas não leu.

Encerrando, finalmente o ciclo do Livro, ele é o único capaz de nos contar uma história; de nos permitir conhecer e vivenciar novas emoções; uma recomendação nutritiva para nossa mente; um amigo para momentos de solidão; uma fonte de carinho e esclarecimento em momentos onde temos dúvidas, ou simplesmente mais um livro, que por menos que tenha sido desvendado, por menos que tenha sido lido, nunca deixará de ser um Livro, este importante instrumento capaz de nos levar a lugares aonde nunca chegaríamos por nossas pernas ou nossa imaginação.

O Brasil é um país de gente disposta a ler, porém com uma disposição que precisa ser respeitada, e que precisa de estratégias para ser implementada e incentivada, custe o que custar, pois há um custo maior que livros não lidos: é o verdadeiro analfabeto social, não aquele que não sabe ler, mas aquele que sabe mas não lê.


Cesar Romão
www.cesarromao.com.br

 



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